O 12 de outubro e o seu ambiente atual

12 de outubro, dia das Crianças!
Eu que desde criança sempre fui rodeada por elas. Cresci numa família que hoje tem crianças desde 94 anos de idade até 10 meses. Escolhi minha profissão e quando percebi já estava mergulhada nos estudos sobre psicologia do desenvolvimento, bebês, infância, famílias… Quando paro pra pensar percebo que não podia ser diferente. Essa sou eu! E eu, Valéria, acredito com toda minha verdade que o cuidado com a infância significa cuidar do nosso Futuro (com F maiúsculo sim!). Significa esperança e cuidar do Futuro do mundo em que vivemos. Winnicott, que era pediatra e psicanalista, autor de teorias que ampliaram a visão da psicanálise sobre essa etapa do desenvolvimento, falava e trouxe para a Psicanálise a importância do ambiente para o bom desenvolvimento emocional dos pequenos. Muito do meu trabalho como psicoterapeuta de crianças é embasado em suas ideias. Percebo que na vida pessoal também. Afinal, como já disse convivo com muitas crianças e em conversas com familiares ou amigos me percebo trazendo as questões de cuidados com ambiente (famílias) para o bom desenvolvimento da criança com frequência.
Esses últimos dias, entretanto, diante do momento político atual do Brasil, tem me deixado verdadeiramente preocupada, tensa e com medo. Medo do futuro (aqui f minúsculo)! Medo pelas crianças (que são nosso Futuro). Me vejo tentando entender o que está acontecendo com nosso ambiente. Muitas hipóteses surgem, mas não caberia refletir todas elas aqui neste momento.

 

Voltando ao dia de hoje, o 12 de outubro,  eu acordei querendo ir brincar com meus sobrinhos que moram na mesma cidade que eu. É o que costumo fazer no dia das crianças. Não sou a tia que dá presente nesse dia, procuro estar/ser presente, ser um ambiente de diversão pelo menos. Hoje, porém, com as notícias sobre a política no país fui sendo tomada pelo medo. E fiquei com medo de hoje não conseguir ser para eles esse ambiente divertido. Entretanto, não deixarei de visitá-los. Vou – como penso que é a função dos adultos com as crianças – conter meus medos e angústias, para tentar proporcionar a eles a tranquilidade NECESSÁRIA à infância. E realmente espero estar acompanhada por mais de 51% do nosso ambiente nas próximas semanas. Que mais de 51% possam refletir e perceber que nossas crianças NECESSITAM de um ambiente Afetivamente(A) seguro e tranquilo para se desenvolverem com condições de construir um Futuro mais Saudável, menos sofrido. Feliz Dia das Crianças a Tod@s!

De volta, ainda em Transformação…

De volta a minha cidade, a minha casa, ao meu consultório, a minha rotina… abro as redes sociais e chove postagens sobre o congresso da FEPAL ocorrido em Lima na semana passada. Dividida entre o querer compartilhar também aqui um pouco do que foi essa experiência viva e vivida e o cuidado com a exposição, depois de pensar um pouco decidi também compartilhar esses momentos, porém de outra maneira (essa ideia – criar um blog – não  foi minha, mas da pessoa que mais esteve comigo nesses dias, apesar da distância física, Fernando). Foi ele quem me disse: “tu podias escrever tudo isso e colocar num blog de repente, acho que ia ser muito legal”. Decidi seguir a sugestão do Fernando agora enquanto escrevo, pois inicialmente seria um texto pra acompanhar as fotos que postaria no Facebook. E faço isso por uma razão: essa viagem, assim como são os sonhos, condensou inúmeros significados, relevou muitos sentidos profissionais e também pessoais, trazendo uma transformação(como o título do congresso propôs) que é até difícil colocar em palavras. Talvez essa necessidade de escrever seja uma forma de tentar elaborar essa vivência que me foi tão intensa.
Fui viajar sem muitos planejamentos, além do trabalho durante o Congresso que já estava proposto e no qual me encontrava profundamente mergulhada: atividades construídas e realizadas pela Comissão de Crianças e Adolescentes da FEPAL, a qual tenho a satisfação de integrar como analista em formação. Nesse não planejar me vi num misto de sentimentos. Fui descobrindo, estando lá, as possibilidades desse país, ao mesmo tempo que me descobria também, estando sozinha. Descobri que é fantástico estar sozinha! Também me dei conta de que esse sozinha é  só modo de dizer, pois me senti acompanhada o tempo todo por pessoas que ficaram aqui, mas estavam em contato e querendo saber como eu estava por lá, inclusive me ajudando, mesmo que de longe. O sentimento de ter o meu lugar nessas relações foi vital. Acredito que seja vital ter clareza de seu lugar. Assim podemos ir para onde quisermos ou precisarmos, com a tranquilidade de saber que temos pra onde voltar.
Me aventurei nesse estar sozinha (pelo menos na parte concreta) sem ter como me comunicar pelo telefone durante grande parte do tempo. Mistura de medo, com pensamentos catastróficos muitas vezes, e uma satisfação de vida, de alegria comigo mesma de uma forma que ainda não havia experimentado… foi vital também! Sentimentos distintos, ambivalentes e concomitantes. Como nos sonhos, tudo junto e misturado! Isso é vida! Essa viagem teve dois momentos: a primeira parte denominei de “mini férias”; a segunda foi o motivo – que chamei de “a parte séria do negócio” – que me levou para essa viagem, a participação no congresso da Federação Psicanalítica da América Latina. Enquanto escrevo decidi que irei esclarecer e aprofundar cada um desses momento nas próximas postagens. Hoje fico por aqui com o geral do que foram esses últimos 15 dias que no mínimo me trouxeram a necessidade de retomar algo que amo fazer e estava esquecido por mim: escrever. O que virá daqui pra frente nesse espaço  virtual e também na realidade da minha vida eu ainda não sei, mas espero que a inspiração, o contato com a criatividade e a vontade de viver tudo isso permaneçam…

Sobre um barco transformador

Sou psicóloga, trabalho com pessoas, ou melhor, com os sentimentos, histórias, conquistas, frustrações, com a vida delas. Na psicologia me identifiquei com a psicanálise e busco recursos nela para me ajudar no meu trabalho. Na verdade era isso que eu pensava no começo. Achava que ela me auxiliaria no meu trabalho. Mal sabia onde estava me metendo e o quanto ela me auxiliaria na minha vida. E mais, mal sabia o que eu estava buscando, mas estava. E ainda estou. E sei que não sei quando essa busca cessará. Pelo menos uma coisa já descobri com a psicanálise: quanto mais descobrimos, mais percebemos que há o que descobrir.

Antes de entrar nesse barco ouvia muitos falarem sobre como era um processo sofrido, doloroso, inclusive (e principalmente) caro, mas que valia a pena. Outros tantos eram só criticas: psicanálise não funciona, é coisa antiga, inviável para os dias de hoje. Com tantas opiniões decidi me arriscar a entrar no barco e ver qual era a minha. Ainda me considero iniciante nesse barco, mas tenho visto e sentido coisas incríveis acontecerem através da psicanálise/psicoterapia psicanalítica.

Um processo sofrido sim, mas libertador. Para os que convivem com a pessoa? Não! Libertador para aquele que se arrisca a entrar nesse barco. Me arrisco a dizer que os que convivem tendem a passar por um período de estranhamento (semelhante ao da própria pessoa em relação a ela mesma). Enquanto escrevo imagino comentários do tipo; “tu viu como fulano tá esquisito? Essa coisa de terapia deixa as pessoas diferentes…” Sim, a ideia é que deixe mesmo, a colocando em contato com seus sentimentos e que retire as amarras que não a deixavam percebê-los. E principalmente passa a ser possível expressá-los.  Pra quem ainda não possui esse autoconhecimento tal processo pode ser de difícil compreensão realmente. Entretanto aos poucos se vai descobrindo que com os remos nas mãos a decisão do rumo é própria. Pode parecer trabalhoso e até embaraçoso no inicio, mas a satisfação de se conseguir chegar onde se quer não tem preço. Descobre-se que há outros rumos possíveis, menos sofridos… Um processo deveras dolorido é verdade, mas de valor inestimável. Porque não arriscar?